Wednesday, December 14, 2005

2. Do homem-macaco ao homem primitivo

É provável que vários tipos de Australopithecus se tenham espalhado pelas regiões menos florestadas de África há menos de quatro milhões de anos, e não apenas na África Oriental. Foi encontrado um exemplar no Chade e foi anunciada a descoberta de uma forma muito antiga de australopiteco na África do Sul. Este achado, que data de há 3, 6 a 3, 2 milhões de anos, representa o exemplar de Australopithecus mais completo em termos de esqueleto que foi descoberto até ao momento. Os ossos do pé confirmam a bipedia, embora algumas características tenham sido associadas à vida nas árvores, e é possível que nessa época a África Austral fosse mais florestada do que a África Oriental.
A relação de todos os tipos de australopitecos formam uma rede emaranhada e a sua classificação está longe de ser um assunto encerrado. Existe uma distinção ampla entre formas esguias, como o Australopithecus Aferensis e o Australopithecus Africanus, e uma forma mais robusta que evoluiu um pouco mais tarde (há cerca de 2, 5 milhões de anos), mas as linhas de descendência nas diversas zonas de África ainda não são totalmente claras.
Parece provável que os tipos gráceis tenham sido pelo menos tão hábeis no manuseamento e no fabrico de utensílios como são hoje os chimpanzés. A postura bípede, ao libertar as mãos da locomoção, talvez lhes tenha facilitado o uso dos utensílios mais do que aos chimpanzés, mas não foram descobertos utensílios de pedra identificáveis associados aos australopitecos gráceis. Se usavam utensílios, é provável que estes fossem feitos de materiais perecíveis ou de pedras intactas, como os galhos e os martelos dos chimpanzés actuais.
É certo que a bipedia dos primeiros hominídeos representou um grande avanço na evolução da humanidade. Surgiram muitas sugestões para explicar o valor adaptativo da locomoção e da postura bípede. Se, por um lado, as camadas espessas de pêlo que os nossos antepassados macacos conservavam desapareceram para permitir perdas de calor nas savanas escaldantes, por outro, a bipedia erecta teria reduzido a quantidade de pele exposta ao calor e aos danos provocados pela acção directa do sol. A bipedia obriga a levantar a cabeça, a afastá-la do solo que irradia calor e a expô-la a ventos mais frescos. Permite observar, sobre a vegetação da savana, os primeiros indícios da presença dos inimigos e das presas, fugir e atacar. É mesmo possível que a bipedia tenha evoluído, em primeiro lugar, não para manter a vida na savana, mas para a atravessar o mais depressa possível e procurar refúgio nas manchas de floresta do mundo cada vez mais árido da época.
Com a adaptação bípede à vista nos prados, não só foi possível sobreviver num mundo em mutação como surgiram novas oportunidades. A postura e a marcha erecta libertaram as mãos, que assim podiam pegar em pedras e atirá-las quando surgia o perigo ou a hipótese de matar algum pequeno animal. As mãos também ficaram disponíveis para evoluir no sentido de uma melhor manipulação, aliada ao aperfeiçoamento da actividade mental, graças a cérebros mais desenvolvidos. Estes encontraram então um novo mundo, auxiliados pela acuidade visual dos primatas, fruto de uma longa evolução: um mundo de grande profundidade à distância, com diversos pormenores à volta, também eles a diversas profundidades, desde o pequeno roedor debaixo dos pés ao grupo de leões debaixo das árvores ao longe. E, evidentemente, houve um prémio evolutivo para os australopitecos dotados de um melhor cérebro, que lhes permitia ter uma melhor percepção do que os rodeava na vastidão do mundo, quer para fugir aos perigos, quer para aproveitar as oportunidades.
Os grandes pénis e os seios volumosos da linha humana podem ter evoluído a par da bipedia, alterando a natureza da atracção sexual e ajudando, a longo prazo, a fomentar laços mais personalizados entre os machos partilhadores de alimento e as fêmeas com os seus filhos, ou seja, reduzindo o acasalamento indiscriminado que se encontra em quase todos os outros primatas (incluindo os chimpanzés). A bipedia deve ter aumentado a subtileza de todos os encontros sociais, criando uma maior agilidade mental para negociar os aspectos sociais e talvez aumentando assim o alcance dos sinais faciais e vocais subjacentes ao desenvolvimento da linguagem. Em todo o caso, a bipedia assinala o ponto em que os hominídeos e os pongídeos decisivamente se separaram.
Existem muito exemplos da evolução directa da bipedia nos australopitecos. Na localidade de Laetoli, na África Oriental, foram encontradas pegadas que datam de há 3, 6 milhões de anos, quando os vestígios de muitos animais e até marcas de pingos de chuva foram conservados em cinzas vulcânicas que endureceram ao sol depois de molhados pela chuva e posteriormente foram sepultados por uma nova camada protectora de cinza. Ao longo de 27 metros, vêem-se cerca de setenta pegadas de hominídeos, e é como se elas registassem a caminhada de dois indivíduos, um maior do que o outro, lado a lado, com um terceiro a seguir as pisadas do maior dos dois.
Foi do tipo grácil dos australopitecos que veio a nascer o género Homo. O primeiro da linha humana está representado, há mais de dois milhões de anos pelos despojos fósseis do Homo Habilis, uma espécie que apresenta uma gama considerável de tipos e que novas descobertas poderão levar a subdividir em duas ou mais espécies diferentes. Certos exemplares do Homo Habilis ostentam braços bastante compridos como os dos Australopithecus Aferensis, mas o tamanho do cérebro do habilis começa onde o maior dos cérebros dos autralopitecos acaba e vai de 650 a 750 ml. Os dentes são mais humanos na forma que os dos australopitecos, a face é mais achatada, os ossos do crânio mais finos e a testa mais alta.
O fóssil mais antigo que pode ser atribuído ao Homo primitivo veio da Etiópia há cerca de 2, 5 a 2, 3 milhões de anos. Um fragmento do maxilar superior de Hadar mostra uma arcada de dentes já não tão quadrada como as dos macacos e as dos australopitecos. É muito significativo que os estratos geológicos do achado de Hadar incluam igualmente utensílios de pedra muito primitivos, enquanto noutro sítio da Etiópia foram descobertos utensílios junto de despojos de hominídeos e ossos de animais demonstrando esquartejamento, ligeiramente anteriores. No entanto, o fabrico de utensílios de pedra tem mais de 2, 5 milhões de anos. Os utensílios mais antigos que se conhecem – lascas toscas extraídas de seixos – foram descobertos na Etiópia e têm o nome de Omo, a região em que foram encontrados. Datam de há três milhões de anos. Na paisagem seca da savana, era ao longo do leito dos rios e dos ribeiros e junto das poças e lagos que os nossos mais antigos antepassados se deslocavam, e aproximavam-se da água tal como as outras espécies dos prados. Nestes locais era possível caçar animais de pequeno porte e apanhar seixos para fazer utensílios.
Na época a que pertencem os fragmentos do maxilar de Hadar, o simples esmagamento de seixos do estilo Omo evoluíra para a primeira tradição industrial verdadeiramente distinta, a que chamamos olduvaiense, visto ter sido no desfiladeiro do Olduvai, na África Oriental, que foi reconhecida pela primeira vez. Também a tradição olduvaiense se baseava em seixos, usando quer as lascas partidas quer os núcleos que restavam após a remoção das lascas. As lascas podiam cortar e os núcleos podiam debastar. Achados de ossos partidos de animais junto destes utensílios primitivos permitem-nos admitir que eles serviam para sustentar a carne de certas partes de animais capturados por outros ou caçados pelos próprios hominídeos. Quer a caça quer a necrofagia sob a ameaça de rivais exigiam agilidade mental e trabalho colectivo: a natureza continuava a premiar o poder mental. O fabrico de utensílios regular e socialmente partilhado requeria cérebros de boa qualidade, capazes de uma sequência de operações alinhadas com um conceito de produto acabado, por muito inconsciente que este fosse. Os utensílios olduvaienses são muito toscos e foi preciso um milhão de anos para evoluírem para algo melhor, embora assinalem um grande progresso na evolução da humanidade. A vida no solo, o fabrico de utensílios e o consumo de carne constituem a trindade de adaptações que assinalam a transição dos antigos macacos para os primeiros homens.
Os seres humaos são os únicos primatas em que as mãos são acentuadamente diferentes e a assimetria cerebral associada à existência das mãos parece também estar envolvida na capacidade de usar a linguagem. Os cérebros assimétricos do Homo Habilis indicam a incipiência do uso da linguagem, embora as partes do tracto vocal que nos ajudariam a determinar a posição da laringe nestes seres não tenham sido encontradas. O equilíbrio do cérebro no cimo da espinal-medula, visível desde o Australopithecus, teria dado início às mudanças necessárias à flexão da parte inferior do crânio e à posição dos maxilares, que posteriormente se traduziram na capacidade de vocalização que não está ao alcance dos chimpanzés. É provável que os primórdios da linguagem tenham surgido em grupos de habilis, tão rudes na articulação e tão limitados na expressão como toscos, primitivos e invariáveis eram os utensílios da época. É provável que fosse uma linguagem cheia de possibilidades de expansão para o pensamento abstracto, mas a sua prolongada manifestação inicial terá sido de âmbito muito limitado e muito utilizada na esfera social, em consonância com a peculiar inteligência dos primatas.
Em relação à vida quotidiana do Habilis, é provável que a maior parte da alimentação fosse matéria vegetal, mas os ossos de animais encontrados junto de utensílios olduvaienses mostram, por vezes, sinais de terem sido utilizados utensílios para preparar a carne desses ossos. Não é fácil afirmar ao certo se o Homo primitivo caçava ou se se alimentava de carne caçada por outros animais. Mas ainda que o homem primitivo fosse essencialmente um necrófago, encontrava-se decerto no topo da cadeia alimentar, apondo a sua marca no mundo natural de que fazia parte. É possível que a característica distintamente himana de partilhar a carne com outros caçadores e com as mulheres e filhos tivesse origem no Homo Habilis. Tal como as relações mais ou menos monogâmicas e de parentesco.
Alguns exemplares de Homo Habilis têm características que prefiguram os traços físicos da fase seguinte da evolução humana, como arcadas supraciliares muito acentuadas e uma forma mais angulosa da parte posterior do crânio, enquanto a zona facial pode estar mais inserida na abóbada da caixa craniana, com um nariz mais saliente. Os esqueletos pós-cranianos dos vários tipos de Homo Habilis também podem variar consideravelmente. Alguns indivíduos têm ainda as pernas curtas e os braços compridos dos australopitecos; outros têm pernas mais compridas, como os homens a que deram origem.
O Homo Habilis desaparece dos registos fósseis há cerca de 1, 8 milhões de anos; neste período, a fase seguinte de evolução humana manifesta-se em África e talvez também noutras partes do mundo. Mais ou menos na mesma época, a tradição olduvaiense foi dando lugar a outra muito característica a que chamamos acheulense, em virtude de os seus produtos terem sido identificados pela primeira vez na localidade de St. Acheul, no Norte de França. A tradição olduvaiense posterior inclui peças trabalhadas dos dois lados, o que representa um avanço considerável em relação aos utensílios de núcleos grosseiramente lascados das fases anteriores. Estes bifaces de pedra lascada, trabalhados em todas as superfícies, são percursores dos chamados “machados de mão” acheulense, utensílios destinados a executar várias tarefas, que existem em diversos tipos e que, nalguns casos, revela grande destreza manual.
Os artefactos bifaciais propriamente ditos começam a surgir nos registos arqueológicos africanos há cerca de 1, 5 milhões de anos. O desenvolvimento dos machados de mão estandardizados e destinados a todo o tipo de trabalhos aponta para a evolução do poder mental dos sucessores do Homo Habilis, que lhe está associado. É provável que o fabrico mais padronizado de machados de mão, que envolve mais fases e uma melhor previsão do produto acabado, se tenha reflectido num uso da linguagem mais estruturado e estandardizado.
É possível que eventualmente um tipo tardio de Homo Habilis, que tinha apenas ao seu alcance o estilo olduvaiense de fabrico de utensílios, tenha passado de África para o Médio e Próximo Oriente antes de o acheulense se desenvolver no continente africano. Assim, foram sucessores do Homo Habilis que desenvolveram a tradição acheulense do machado de mão em África (e depois o enviaram para a Europa e para o Médio Oriente), enquanto outros sucessores dos emigrantes habilis seguiram o seu próprio caminho no Extremo Oriente, sem grande contacto com os outros grupos.
Os dois grupos sofreram uma evolução paralela para a fase seguinte da humanidade, essencialmente muito semelhante nas duas áreas, visto que o material genético, fundamentalmente o mesmo, sofreu as mesmas pressões de selecção natural, e não há dúvida de que alguns genes continuaram a fluir de um lado para o outro em todas as populações humanas, de África à China e a Java.
A fase de evolução humana pós-habilis, representada por achados no Extremo Oriente, tem o nome de Homo Erectus, e muitos antropólogos têm atribuído o mesmo nome científico aos achados africanos da mesma fase, realçando o que todos têm em comum. Os antropólogos que consideram que há algumas diferenças significativas entre os dois tipos de achados chamam Homo Ergaster aos representantes africanos e europeus desta fase da evolução humana. Subsiste a possibilidade de o Homo Ergaster ter evoluído em África há cerca de dois milhões de anos e se ter transformado no Homo Erectus – que é ligeiramente diferente – no Extremo Oriente depois de alguns dos seus descendentes terem chegado à China e a Java há 1, 8 milhões de anos.
Com a criação do Homo Ergaster/ Erectus, o registo fóssil ganha consistência e deparamos com uma forma humana muito mais parecida connosco do que as anteriores. Os achados mais antigos de ergaster em África remontam a 1, 75 milhões de anos. O esqueleto conhecido por “Rapaz de Nariokotome”, com 1, 6 milhões de anos, é muito completo. O crânio está tão bem conservado que, pela primeira vez há história da humanidade em evolução, conseguimos determinar com exactidão o tamanho do cérebro de um indivíduo. Tinha cerca de onze anos de idade, mas já media cerca de um metro e sessenta de altura e tinha uma capacidade craniana de cerca de 880 ml. Calcula-se que, se tivesse chegado à idade adulta, teria atingido um metro e setenta e cinco de altura e uma capacidade cerebral de 900 ml. O tamanho do cérebro dos seres humanos modernos, que têm em média 1200 a 1500 ml, é cerca de três vezes maior do que seria de esperar em primatas com as dimensões do nosso corpo. De facto, o tamanho do cérebro duplicou entre há cerca de 2, 5 milhões de anos, com os autralopitecos tardios, e há um milhões de anos, com o ergaster e o erectus, deixando de ser pouco maior que o do macaco, para passar a ter uma capacidade que era apenas cerca de um terço inferior à dos homens de hoje.
Este aumento indica claramente um poder mental crescente em termos absolutos. À medida que os nossos cérebros foram crescendo em termos evolutivos, foram-se registando perdas relativas em áreas associadas ao olfacto, à visão e até ao controlo motor (deixamos de saltar nas árvores), mas houve ganhos consideráveis nas zonas neocorticais do cérebro, que se supõe gerirem dados complexos de uma forma menos institiva e estarem associadas ao uso da linguagem e ao pensamento conceptual. A laringe nos fósseis de ergaster/ erectus, quando a têm, parece situar-se num ponto intermédio entre a posição verificada nos australopitecos e nos seres humanos modernos, reforçando a suposição de que o uso da linguagem estava a desenvolver-se, embora lentamente, a par da evolução física.
Estes seres comiam carne e usavam mais a parte frontal da bica para dar dentadas e rasgar do que a parte posterior para mastigar (matéria vegetal). Toda a arquitectura craniana da fase do ergaster/ erectus (e também das subsequentes, até à chegada do homem moderno) aponta para a necessidade de músculos fortes e bem ancorados para accionar os dentes da frente, implantados em maxilares pesados e retraídos. Arcadas supraciliares acentuadas, placas ósseas na parte posterior do crânio e por vezes carenas na zona média-superior do cérebro do erectus asiático atestam uma musculatura forte.
No “Rapaz de Nariokotome”, o resto do esqueleto por baixo do crânio é muito semelhante ao dos seres humanos modernos, com uma postura totalmente bípede e proporções dos membros idênticas às nossas. Os seres humanos são muito variados, de qualquer modo, ao que parece, na fase ergaster/ erectus da evolução humana, o esqueleto pós-craniano atingira fundamentalmente a forma e a estatura modernas. Daqui em diante, a evolução física do homem resumir-se-ia essencialmente a uma série de alterações na arquitectura craniana e no tamanho e formato do cérebro.

2 Comments:

At 10:22 AM, Blogger mariana said...

a desta vez vaz um texto menor...Eu em!!!

 
At 7:23 PM, Blogger andrieli said...

Eu quero saber qual era os animais que eram caçados pelos Hominídeos!!eu queroooo

 

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